Candidatos ao Planalto expuseram planos que passam por temas como guerra ao narcotráfico, tarifas e futuro de organizações como Brics, Mercosul e OCDE
Os programas de governo dos cinco candidatos a presidente da República que melhor pontual nas pesquisas de intenção de voto trazem um conjunto de propostas específicas para a política externa brasileira.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) apontam caminhos ora similares, ora distintos para a diplomacia a ser conduzida pelo Itamaraty nos próximos quatro anos.
Em meio às tarifas impostas ao Brasil pelo governo de Donald Trump, a presença de líderes estrangeiros no palanque, como fez o presidente da Argentina, Javier Milei, a agenda da política externa ganhou importância na campanha e reuniu, além de temas inéditos, outros frequentes em outras eleições, como a relação comercial com a China e com governos autoritários, como os regimes da Venezuela e do Irã.
Alguns temas, como o tarifaço de Donald Trump, que dominou o noticiário, não aparecem em todas as propostas dos cinco candidatos que melhor pontuam em pesquisas de intenção de voto.
Nem todos adotam também o conceito de narcoterrorismo usado pelo americano para empregar as Forças Armadas no entorno do Brasil, citado apenas por Flávio Bolsonaro e Romeu Zema. Os demais falam em cooperação contra o crime organizado.
Washington designou em junho de forma unilateral o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Os programas são, em geral, genéricos, sem apresentação de metas detalhadas, orçamentos empregados, nem indicação de compromissos vinculantes.
Três candidatos de oposição (Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema) fazem menção à retomada do processo de adesão do Brasil à Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O governo Lula paralisou o processo, embora o País mantenha participação na entidade.
Duas outras organizações também foram alvo de propostas concretas: o Brics e o Mercosul, citados nos planos de Lula, Zema, Caiado e Renan Santos. Eles apresentam visões distintas, com propostas de maior ruptura com o Brics e mudança profunda no bloco sul-americano por parte de Zema.
Enquanto o candidato do PT defende feitos e faz uma espécie de prestação de contas do mandato, os demais apresentam críticas ao que consideram uma política externa marcada por viés ideológico, aproximação com ditaduras e regimes autoritários. Flávio Bolsonaro e Zema são os que fazem as críticas mais incisivas.
Os candidatos também citam um ambiente global marcado pela quebra de regras internacionais até então consolidadas, por guerras e fricções envolvendo as principais potências, com impactos econômicos, e a corrida por garantia de acesso e controle de tecnologia a recursos energéticos e materiais estratégicos. Eles discutem como o Brasil deve se posicionar numa ordem em redesenho com uso recorrente de sanções e da força.
Veja abaixo os destaques dos programas de governo para política externa, com base nos documentos registrados pelos candidatos no Tribunal Superior Eleitoral:
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Em linha com o discurso oficial do Palácio do Planalto, a campanha de reeleição de Lula adotou a defesa da “soberania” como linha-mestra do programa de governo, usando como plataforma político-eleitoral o embate com os EUA e o governo Trump. A relação com Washington é considerada pelos estrategistas de Lula o principal desafio imediato de um eventual quarto mandato de Lula.
“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso País a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, afirma o documento petista, que menciona Trump apenas uma vez.
O programa de Lula recapitula os principais momentos da política exterior entre 2023 e 2026, como as conferências sediadas no Brasil (G-20, Brics e COP-30) e recupera o conceito de restaurar a inserção internacional do País. O programa petista também aposta na defesa do multilateralismo e da reforma de instituições de governança global.
O plano de um quarto mandato repete a intenção de manter ou aprofundar processos em curso, entre eles, “a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G-20, espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”.
“Queremos liderar a construção de uma governança internacional para as tecnologias digitais e a inteligência artificial, baseada na soberania digital com proteção de dados, cooperação científica, transferência de tecnologias estratégicas e regulamentação democrática das plataformas digitais e da IA”, afirma o plano de Lula.
Lula e o PT não fazem nenhuma autocrítica, tampouco mencionam episódios de desgate internacional e embates diplomáticos ou propõem correções de rota.
O programa indica que serão ampliados esforços para diversificar parcerias estratégicas e atuar de forma universalista, como forma de reação a imposições, seja de sanções ou tarifas unilaterais, como as três ondas de tarifaços de Trump, desde o ano passado.
“Investiremos em novos acordos comerciais e na abertura de novos mercados para nossos bens e serviços, de modo a continuar enfrentando agressões comerciais e a defender os interesses do País com base nas normas internacionais e no multilateralismo”, diz o programa.
Flávio Bolsonaro (PL)
O senador e candidato do PL apresentou um documento estruturado com oposição a decisões e episódios ocorridos durante o governo Lula. O herdeiro de Jair Bolsonaro afirma que a “política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos”.
Ele explora a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin em Teerã, em 2024, como representante de Lula na posse do presidente iraniano e a “foto ao lado de lideranças terroristas, mortas poucos dias depois”; e a recepção, em 2023, com tapete vermelho oferecida por Lula ao ditador venezuelano Nicolás Maduro, a quem chama de “fraudador do processo eleitoral e preso por narcotráfico e narcoterrorismo”. Também critica o aval de Lula para navios de guerra do Irã atracarem no Rio, em 2025, “apesar da posição contrária de parceiros históricos” – uma referência ao prostesto explícito dos EUA, ignorado por Lula.
“Muito alinhamento ideológico e nenhum retorno para o Brasil: nem comércio, nem investimento, nem respeito”, critica o programa do PL. “Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia. O Itamaraty voltará a ser conduzido pela competência técnica que sempre marcou seus quadros, e o Brasil voltará a privilegiar os parceiros interessados no ganho mútuo do comércio, sem escolher amigos por afinidade ideológica.”
O candidato do PL, alinhado a Trump e Milei, promete reaproximar politicamente o Brasil com os presidentes atualmente no poder nos EUA e na Argentina, além de recompor as relações com Israel.
“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, Estados Unidos e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, propõe o plano de Flávio, visto com preocupação por outros polos, como China e União Europeia, por causa de declarações anteriores que sinalizaram distanciamento e adoção de uma posição pró-EUA.
“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo”, afirma.
O projeto afirma que o País precisa de maior “abertura comercial” e de “evitar a dependência excessiva em áreas críticas, como as cadeias de suprimentos e de tecnologia”.
“O passo mais urgente é retomar o cronograma interrompido de adesão à OCDE, incluindo o fim gradual do IOF sobre o câmbio. A adesão à OCDE é mais do que um selo: ela exige convergência das nossas normas aos padrões internacionais, melhora a governança das empresas estatais, reduz a corrupção e integra o Brasil às melhores práticas globais. Retomar esse referencial permitirá, inclusive, superar a relativização da Lei das Estatais conduzida em 2023 por decisão judicial, devolvendo segurança e previsibilidade a quem investe”, diz o programa de Flávio Bolsonaro.
O candidato do PL também fala em incentivar um “amplo espectro de tecnologias disponíveis, com foco em inovação como drones e inteligência artificial” para segurança e defesa nacional. Flávio Bolsonaro afirma que vai declarar também PCC e CV como terroristas, embora a legislação brasileira não preveja tal tipo de classificação para atividades de crime organizado, nem consequências práticas desse tipo de designação.
“Os investimentos nas Forças Armadas devem ser condizentes com a inserção de um País que é membro de diferentes blocos e grupos de nações, voltados ao enfrentamento de desafios políticos e econômicos globais”, afirma, sem citar cifras ou patamares mínimos de investimento.
Ronaldo Caiado (PSD)
O ex-governador de Goiás apresentou o mais extenso plano, estruturado em 16 tópicos, inclusive com indicadores de acompanhamento das propostas. Caiado sugere, desde a definição de uma estratégia de inserção internacional debatida com o Congresso e a sociedade civil, passa por participação em organismos multilaterais, rediscussão do Mercosul e ampliação da rede de acordos, projeção de poder e defesa até ampliação e melhoria de serviços consulares e a assistência a brasileiros no exterior, em momentos de crise.
“Somos uma grande economia pouco integrada ao comércio mundial, com rede limitada de acordos, empresas pouco internacionalizadas e pauta exportadora de baixa complexidade tecnológica”, afirma o plano de Caiado. “O Mercosul, por sua vez, já não conta com uma visão comum entre seus membros sobre seus objetivos, seu funcionamento e seu futuro. Superar essa condição é requisito para elevar a produtividade, a competitividade e a renda dos brasileiros.”
O candidato propõe a busca por mais acordos comerciais e consolidar a parceria com a União Europeia, além de discutir o futuro do Mercosul, tema que, para ele, não pode ser um debate “interditado”. Ele propõe reduzir barreiras internas, harmonizar procedimentos e reconhecer certificações. Também lista como prioridade a integração por meio de corredores multimodais e interconexões energéticas e de telecomunicações com países vizinhos.
Para Caiado, o Brasil deve ampliar de forma deliberada a presença nos mercados emergentes de elevado potencial, com prioridade para a Ásia, a África e o Indo-Pacífico. Ele fala em reforçar postos nessas regiões.
Caiado defende aproximar o Itamaraty do setor produtivo e atribuir a embaixadas metas de exportação, investimento, tecnologia e abertura de mercados, com avaliação periódica. O corpo diplomático deverá também, segundo ele sugere, atuar no acesso “à inteligência artificial, à computação avançada, à infraestrutura digital, à biotecnologia e aos novos materiais”.
“As parcerias em minerais estratégicos incorporarão processamento, pesquisa, formação e indústria no território nacional. O Brasil não escolherá um único bloco nem aceitará permanecer mero fornecedor de matéria-prima”, afirma o plano do ex-governador goiano, que, no Estado, assinou um acordo de terras raras que atendia demandas e viés dos EUA, considerado inconstitucional pelo governo Lula.
Um dos primeiros pontos sugeridos por ele é, no entanto, fortalecer simultaneamente as relações com os Estados Unidos, a União Europeia, a América Latina, a África, a Ásia e o Oriente Médio, ”sem hierarquias ou preferências determinadas por afinidades ideológicas”. “Não adotaremos alinhamentos automáticos nem aceitaremos falsas escolhas entre polos geopolíticos rivais”, diz a proposta.
Romeu Zema (Novo)
O plano de governo do candidato do Novo identifica uma perda de pragmatismo da diplomacia brasileira e o afastamento de democracias que são parceiros naturais e seus maiores mercados – embora não mencione quais. Ele critica que o País segue como uma das economias mais fechadas do mundo e permanece fora da OCDE.
O ex-governador mineiro prega o ingresso imediato na organização, sediada em Paris, França, com um pacote de reformas institucionais e econômicas, além de “retirar o Brasil do Brics”. Essa seria uma medida concreta do que o candidato do Novo chama de alinhamento “às democracias e mercados globais”.
Outra ação seria “transformar o Mercosul em zona de livre comércio” para destravar acordos com mais países. Zema critica a regra do bloco de negociação de acordos que incluam os quatro países (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai). Ele prega uma aproximação com a Argentina, de Milei, que compartilha da visão de reforma do Mercosul.
Para Zema, o País “perdeu protagonismo e credibilidade, justamente quando o crime organizado transnacional avança sobre as fronteiras e a crise venezuelana ameaça a estabilidade de toda a América do Sul”. O candidato sugere três eixos do que classificou de diplomacia “pragmática e soberana”.
Também defende uma aproximação com países da bacia do Pacífico e países amazônicos, para liderar “as agendas de meio ambiente, segurança alimentar e transição energética”.
Zema diz que o Brasil deve assumir protagonismo ao crime transfronteiriço. Ele sugere ampliar a presença na Amazônia e regiões de fronteira, “integrando inteligência, vigilância e forças de segurança para sufocar a entrada de drogas e armas que abastecem o crime organizado”.
Ao mesmo tempo, no entanto, o candidato do Novo sugere uma coordenação com os Estados Unidos e países vizinhos para eliminar as facções. Zema não cita explicitamente, mas defende o conceito de “narcoterrorismo”, adotado como central na política de segurança nacional e diplomática de Trump.
“Coordenar com os Estados Unidos, países sul americanos e demais países e atores interessados no combate ao PCC, ao CV e às demais facções terroristas, compartilhando inteligência e atuando de forma conjunta contra suas redes financeiras e operacionais que atravessam fronteiras”, afirma seu plano.
Zema sugere ainda isentar de visto os turistas de países “seguros” – sem mencionar qual será o critério – e abrir caminhos legais à imigração de talentos e profissionais qualificados. O governo Lula adotou a reciprocidade na política de vistos e reverteu a isenção unilateral do governo Bolsonaro para EUA, Japão, Canadá e Austrália.
Em meio à crise diplomática do governo Lula com o governo Netanyahu, de Israel, Zema promete retomar a participação do País na Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) “como parte do resgate de uma tradição diplomática de defesa da liberdade e da dignidade humana”. O governo Lula retirou o Brasil da condição de observador, no ano passado, após quatro anos de participação.
Renan Santos (Missão)
O candidato do Missão estruturou uma proposta de política externa com 13 eixos, entre os quais, a construção de uma bomba atômica brasileira (poder nuclear), incentivos à desdolarização, com uma cesta de moedas e destaque para o real na América do Sul, além do combate ao tráfico internacional. Renan afirma rejeitar tanto o alinhamento automático com os EUA quanto o que chama de “ideologismo de esquerda”.
O Missão identifica como desafios da política externa brasileira “o vácuo de liderança no Sul Global, o colapso da soberania territorial pela captura do narcotráfico, a subordinação a grandes potências, a fragilidade das instituições democráticas e a vulnerabilidade econômica causada pela dependência do dólar”. O partido propõe a “retomada da autonomia estratégica brasileira e o exercício de uma liderança regional genuína baseada em pragmatismo institucional, não em ideologia conjuntural”.
“Nosso porte nos recomenda a ser o árbitro do Sul Global e a auxiliar nossas nações irmãs da América Latina no combate ao tráfico internacional”, afirma o programa de Renan Santos.
Apesar disso, Santos reconhece a dominação da China dentro do Brics e sugere que o Brasil atue de forma mais pragmática na organização voltado ao acesso a mercados, investimentos e cooperação tecnológica enquando se esquiva da subordinação geopolítica a Pequim.
O candidato sugere que o País poderia se reposicionar como árbitro dos países em desenvolvimento por meio da inserção diplomática na África, com mediação de conflitos, na Ásia, com destaque para comércio com países da ASEAN, e da integração na América Latina, área de influência tradicional, onde deveria exercer liderança “sem imperialismo”.
Para ele, o Brasil deveria liderar o enfrentamento ao narcotráfico com as Forças Armadas, por meio de um “pacto interamericano” e da existência de um centro de operações latino-americano e de um tribunal internacional especializado na criminalidade transnacional.
Na América do Sul, ele sugere a redução da dependência do dólar americano (pauta que irritou Trump quando incentivada por Lula) por meio “mediante a criação de uma cesta de moedas sul-americana liderada pelo real brasileiro, linhas de swap entre bancos centrais e cooperação monetária regional, convertendo o Brasil em âncora financeira do continente”.
Ele afirma que a moeda brasileira, o real, deve ser uma alternativa e funcionar como “reserva de valor regional e mecanismo de integração econômica”.
Renan Santos defende a construção da bomba atômica como aquisição de poder de dissuasão pelo Brasil e também de estatura diplomática perante as grandes potências.
O desenvolvimento da arma pressupõe a retirada do País do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), o que demandaria aprovação do Congresso. Também seria necessária a aprovação de uma emenda constitucional.
A proposta de “nuclearização”, segundo ele, “busca alcançar autonomia completa do ciclo de combustível nuclear, incluindo capacidade de reprocessamento, convertendo-a em ativo estratégico de deterrência e garantia irrestrita da soberania nacional”.










